segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Tempos de inocência.

Sinto-me profundamente frustrada ao pensar que me deixo abater pelas pequenisses dessa vida. Fatores externos insignificantes possuem o poder de afetar meu humor? Aaaah Vá... Nessas horas eu morro de vontade de ter um campo de força invisível, me protegendo. E já que me lembrei deste artefato bélico notável, vou deixar de emoxisses e vou fazer o que faço de melhor: Contar histórias idiotas. De nada... De nada.

Quando pequena, eu gostava de brincar de boneca, escrever no diário, fazer comidinha de mentirinha, essas coisas de menina. Mas, pela convivência forçada com duas pestes mirins do sexo masculino, também brincava de coisas de menino, como Comandos em Ação. Primeiramente, eu tentei integrá-los às minhas brincadeiras de Barbie. Porém, havia certa incompatibilidade física insuperável, pois se fôssemos imaginá-los na escala humana, a Barbie teria 1,80m e os Comandos, 60cm.

Assim, acabava me rendendo e brincando de guerrilha mesmo! Mas sempre acabava a brincadeira irritadíssima! Porque eu metralhava, jogava bombas atômicas na base de Dorian e nada, NADA o atingia! Não havia santo que ultrapassasse a invulnerabilidade do Campo de força poderosíssimo dele... Eu só cansava meu pobre exército, que tombava diante do Super-Míssil-Inteligente-Teleguiado-de-Altíssima-Precisão que Dorian lançava. Não havia escapatória, eu podia fugir pro fim do mundo, o míssil me acharia! Muito sacana, não?

Aliás, sacana era o sobrenome de Dorian. Acho que vou até incorporá-lo ao pseudônimo! Ele roubava descaradamente notas de 500 no Banco Imobiliário! E quem era eu pra contestar? Ele era o mais velho, o mais rico, o dono do jogo e o banqueiro. Tudo ao mesmo tempo. Só me restava calar-me, como boa súdita e aceitar a humilhação da derrota eterna. Mas a pior sacanisse de Dorian que eu me recordo ainda estava por vir... E envolvia meu avô. O mais austero dos austeros.

Certa vez eu estava entre os amiguinhos de Dorian, brincando inocentemente, quando um deles pronuncia uma palavra desconhecida no meu vastíssimo vocabulário dos 7 anos. “Caralho”. Eu não sabia o significado desta palavra, mas imaginava que tinha alguma relação com baralho. Com vergonha da minha ignorância, esperei para perguntar a Dorian num momento mais reservado. Escolhi o momento perfeito. Após o almoço, na casa do meu avô... Perguntei timidamente, “Dorian, o que é car*****?”. Ele gargalhou com uma satisfação imensa, olhos brilhando e mandou a sentença fatal: “Pergunte a voinho”.

Voinho era nosso modo carinhoso no nordeste de chamar “vovô”. Pra quem não sabe, eu nasci em Recife. (depois conto da minha trajetória até aqui). Vamos ao triste fim... Obviamente eu fui perguntar a voinho o significado da palavra! Sempre ficava impressionada com a extrema sapiência dos adultos! Não havia perguntas que eles não soubessem as respostas. Sempre imaginava se quando eu crescesse seria inteligente assim! Mal sabia que minhas questões podiam ser solucionadas por qualquer jumento minimamente alfabetizado.

- Voinho, o que é car****???

Se com o decorrer da vida eu não tivesse descoberto, não saberia até hoje. Saí sem resposta, apenas com meia dúzia de repreensões enérgicas, uns bons tabefes e puxões de orelha! Não diga essas palavras feias, menina! Que boca suja! Daí pra baixo. Fora o castigo.

Ahhhh Dorian Sacana. Sempre honrando seu sobrenome.

Um comentário:

Anônimo disse...

Colocar os *** cobrindo a palavra em questão apenas quando a Maripê criança a pronuncia é o tipo de detalhe que faz destes textos verdadeira jóias... adorável.