sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Um pouco disso

Chovia...

Abri os olhos da rua e tudo o que se via era o bafo cinza abraçando círculos multicoloridos em movimento.

De repente, instaura-se aquela pontinha de melancolia despropositada, que esfria os corpos e enegrece os rostos. Simplesmente porque o tempo hoje se recusou a sorrir, mantendo-se numa austeridade londrina. O que não considero de todo negativo... Dias assim, de certa forma, forçam-nos a desacelerar o ritmo de vida frenético e desabilitar o modo automático. Ei! Estou aqui. Viva-me! Momentos reflexivos se seguem.

Pego meu livro, sento no ônibus e vislumbro através do vidro gotejado o emaranhado de automóveis congestionados. Buzinas, ronco dos motores, fumaça... São dissolvidos pela água que “pinguilha” calmamente na minha janela, e tudo o que me resta é ele. Na capa, uma árvore negra e nua, parecendo um enorme porta-chapéus. Ela repousa sobre a neve das mais brancas, daquelas que dói olhar. Há também uma silhueta em sombras, arqueada, carregando um guarda-chuva vermelho-sangue. “A menina que roubava livros”.

Tudo muito sombrio. A começar pelo anjo da morte que nos narra os acontecimentos. Sinto que o livro chamou para si o dia, fazendo-o pano de fundo para sua história. Moldando o tempo a seu bel prazer, abram-se as cortinas! Faça-se chuva, frio, tristeza. Era uma vez...

Era uma vez a história deles. Ela se confunde com a minha e com a sua também. Aliás, somos personagens ativos nessa história, mas insistimos em agir como espectadores. Era uma vez uma São Paulo escancaradamente escondida, como um elefante ignorado. Pelas artérias, escuta-se nitidamente o apelo velado deles. Vez ou outra passo por uma rua paralela ao terminal de ônibus Princesa Isabel, sempre de carro. É humanamente impossível passar por ali a pé, simplesmente porque eles tomam as ruas.



Os zumbis.



Um dia eu vos falo dos zumbis.

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